Nada é o que parece
Autor: agente secreto — codinome “Alex”
Alex trabalhava numa operação secreta, atuando num dos principais ambientes operacionais de agentes secretos — a vida noturna. Para reforçar sua estória-cobertura, sustentando-se no local sem despertar suspeitas, Alex tratou de se aproximar de alguém do ambiente — e os solitários carentes de companhia são uma boa opção. Agentes secretos também têm a habilidade de tornar agradável a vida das pessoas e Pedro teve essa sorte. Assim, por uma “mera coincidência”, Pedro conheceu a simpatia de um jornalista “free lancer” de passagem por Brasília, chamado Alex.
Pedro ficou tão alegre com a excelente companhia de Alex que se animou aos prazeres convidativos da vida noturna. Assim, poucas doses de uísque depois, Pedro disse a Alex que iria abordar uma mulher que estava lhe “dando mole”, pois lhe estava persistentemente sorrindo e olhando diretamente. Ato contínuo, Pedro levantou-se animado e confiante e dirigiu-se para a tal mulher.
Segundos depois, Pedro retornou desanimado e Alex perguntou-lhe o que havia acontecido. Desorientado, abatido e visivelmente frustrado, Pedro disse não entender a atitude da mulher que, quando foi abordada por ele, sequer lhe deu atenção, demonstrando inclusive estar incomodada com a sua presença. Alex lhe pediu que assinalasse a tal mulher, vendo-se obrigado a dividir sua atenção entre a missão a cumprir e a decepção de Pedro. Após isso, rapidamente disse a Pedro o que havia acontecido.
Alex explicou-lhe que o fato de a mulher estar olhando e sorrindo persistentemente para ele era só impressão. O que ocorria de fato é que ela não estava enxergando direito porque mulheres preferem não enxergar a ter que usar óculos na “night”. Assim, o seu suposto olhar persistente para Pedro devia-se ao fato de que, para não demonstrar que não enxergava direito, ela fixou o olhar, coincidentemente na sua direção, mas ela nunca enxergou Pedro na vida dela. Alex explicou que o seu suposto sorriso para Pedro, ao contrário, era resultado da contração facial que ela fazia em seu esforço muscular para tentar enxergar. E Alex explicou também que a demonstração de incômodo que ela manifestou quando da aproximação e abordagem de Pedro, na verdade, foi o enorme susto que ela tomou quando ele apareceu, do nada, repentinamente na frente dela. Ela deve ter passado muito mal, coitada!
Pedro ficou atônito e admirado com a surpreendente percepção de Alex. Pouco tempo depois, Pedro disse a Alex que outra mulher estava lhe “dando mole”, pois lhe estava persistentemente sorrindo e olhando diretamente. Só que dessa vez, inseguro sobre o que estaria acontecendo, Pedro rapidamente assinalou a tal mulher, perguntando ao guru Alex:
— Alex, o que eu devo fazer?
Depois de observá-la sutilmente, para surpresa de Pedro, Alex lhe respondeu:
— Ela está te “dando mole” e sorrindo muito para você.
— É mesmo? — perguntou alegre, o ainda inseguro Pedro. — E o que eu devo fazer? — retrucou imediatamente.
— Aproxime-se dela, é claro! — respondeu Alex.
— Eu?
— Você mesmo. É pra você que ela está “dando mole”, não é?
— É… Mas será que ela está enxergando direito? — perguntou o inseguro Pedro.
— Essa aí enxerga muito bem e é para você que ela está olhando — concluiu Alex.
— Então, eu vou lá — disse Pedro, esperançoso.
Porém, quando Pedro partia para abordar a tal mulher, mais confiante e decidido, Alex lhe falou:
— Só mais um detalhe…
— Detalhe? Que detalhe, Alex? — balbuciou Pedro, assustado.
— Tome muito cuidado! — disse Alex, enigmático.
— Cuidado, eu? Cuidado com o quê? — disse Pedro ainda mais assustado.
— Muito cuidado para saber a resposta — resumiu Alex.
— Resposta? Que resposta?
— Resposta à pergunta — completou Alex, laconicamente.
— Que pergunta, meu Deus? — perguntou o agora confuso Pedro.
— Ora, a pergunta mais importante de todas — explicou Alex, calmamente.
— Que pergunta importante é essa, Alex? Diga logo! — falou Pedro impacientemente.
— Por quê? — disse Alex.
— Por que o quê? — perguntou o inseguro, desorientado, assustado e aflito Pedro.
— O porquê de ela estar “dando mole” pra você.
Continua…

